Será que Todo Mundo Precisa de Terapia?
- elissoares

- 2 de jan.
- 3 min de leitura
Atualizado: 18 de jan.
Você possivelmente já ouviu falar na ideia de que todo mundo precisa de terapia, ou mesmo de que o ideal é que se possa sempre "manter a terapia em dia". Esses dizeres levantam algumas questões interessantes para se pensar: A terapia pode ser benéfica para todas as pessoas? O que faz com que um sujeito em sofrimento não busque ajuda? Todo mundo precisa "manter a terapia em dia"?

Primeiramente, é importante ponderar que como seres humanos, somos todos atravessados por conflitos e diferentes formas de sofrimento. Todas as pessoas, em maior ou menor intensidade, nas diferentes fases de suas vidas, lidam com algum tipo de angústia e dificuldade para atravessar emoções e acontecimentos desafiadores. Por essa perspectiva, podemos considerar que todos podem vir a se beneficiar de um espaço de interlocução no qual se construa uma relação terapêutica de confiança, onde possam ter escuta e apoio profissional para articular suas questões.
No entanto, há o fator determinante de que cada indivíduo tem uma dinâmica de sofrimento inteiramente singular. Assim como cada um de nós tem uma constituição psíquica única e um processo de formação da personalidade que pertence a nossa trajetória pessoal, cada pessoa lida internamente com uma dinâmica de forças e instâncias psíquicas, pressões internas e resistências que produzem um tipo individual de sintomas e defesas. Dessa forma, alguns indivíduos em determinada fase sofrem de maneira que produz pressão suficiente para que possam se movimentar frente ao sofrimento em busca de auxílio, mudanças e novas perspectivas. Em Psicanálise, podemos entender esse momento como um processo de falência das defesas, ou seja, um momento em que antigos recursos para lidar com o sofrimento já não funcionam mais. Quando o eu se depara com grandes dificuldades para mediar funcionamentos interiores e proteger o aparelho psíquico do excesso de estimulação interna e externa, os sintomas e o mal estar se intensificam, tornando o sofrimento mais rígido e limitante, o que para muitas pessoas traz a necessidade de abertura à escuta de si e desenvolvimento de outras maneiras de estar na vida.
Por outro lado, em muitas situações, apesar do indivíduo apresentar sinais de que algo não está bem, o que pode gerar sofrimento a si mesmo e a quem está próximo, é bastante comum que a pessoa produza uma dinâmica interna em que forças provenientes de diferentes instâncias psíquicas se neutralizam entre si, o que não gera pressão psíquica suficiente na direção de um movimento de abertura, para que a pessoa pudesse buscar um processo de ajuda profissional e engajar-se numa jornada de cuidado de suas questões. Isso acontece, por exemplo, quando a pessoa sofre numa situação que a deixa extremamente infeliz, mas a força exercida pelos julgamentos internos faz com que ela se obrigue a continuar naquela situação, possivelmente utilizando-se de idealizações e fantasias que momentaneamente controlam o nível de ansiedade com promessa de compensações futuras, ou mesmo a compensação instantânea de não ter que iniciar uma mudança de rota mais significativa. Nesses casos, mesmo quando fica evidente que algo não vai bem e que existem dificuldades psíquicas experienciadas pelo indivíduo e possivelmente pelas pessoas próximas, o sujeito não consegue desejar, pelo menos nesse momento, estar em um processo de cuidado terapêutico, o que impossibilita a realização de um acompanhamento nesse sentido.
Há também os casos em que a pessoa sente que, naquele momento de sua vida, vem conseguindo lidar com seus desafios internos e externos a partir dos recursos emocionais de que dispõe, o que muitas vezes não gera o desejo de estar em um acompanhamento psicoterapêutico.
Nesse ponto da conversa, chegamos à questão de que, seja qual for o contexto da pessoa, desde dificuldades mais brandas a casos mais graves que impõe um sofrimento mais intenso, para que a pessoa se beneficie de um processo terapêutico, é necessário que ela tenha o desejo de receber esse cuidado, podendo assim envolver-se no processo, para que mudanças possam acontecer. É também importante salientar que não é necessário esperar por uma crise aguda para iniciar o acompanhamento, sendo que o processo pode começar tão logo exista o desejo de cuidar de seu psiquismo e suas emoções, num espaço baseado na construção de uma relação de confiança, sem julgamentos e com a possibilidade de abrir novos campos para o existir.



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